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Título: Afeganistão A maior fuga de informação da história militar americana chegou através da WikiLeaks e d Data: 27-07-2010
Fonte: Público Página(s): 1/2 e 3
Autor:  Jorge Almeida Fernandes    C/ Foto | Cor 

Afeganistão A maior fuga de informação da história militar americana chegou através da WikiLeaks e desmonta as contradições do conflito  
 
Os ficheiros divulgados pouco ou nada dizem que já não se soubesse. Mas poderão ter um efeito explosivo sobre as opiniões públicas ocidentais  
 
Jorge Almeida Fernandes  
 
O site da Internet WikiLeaks colocou ontem em linha 91.731 documentos classificados sobre a guerra no Afeganistão relativos ao período que vai de Janeiro de 2004 a Dezembro de 2009. É a maior fuga de informação militar nos Estados Unidos.  
 
Não trazem grande novidade. Não são relatórios top secret. São uma massa de informação de rotina que traça um quadro devastador da guerra e aponta as contradições dos EUA, visando produzir um impacto imediato nas opiniões públicas ocidentais.  
 
Na era da informação electrónica, os segredos de guerra não são como dantes. As fugas de informação podem ser maciças e instantaneamente divulgadas. Os documentos foram passados a três jornais, o americano The New York Times, o britânico The Guardian e o magazine alemão Der Spiegel, que ontem publicaram as passagens mais relevantes. Receberam antecipadamente a informação para poderem avaliar a sua autenticidade.  
 
A descrição detalhada da guerra, fornecida por militares e funcionários americanos, muitas vezes fundada em fontes afegãs, traça um retrato muito "mais sinistro" do que o propagado pelos Governos envolvidos, anota o diário britânico. Resume o New York Times: "Os documentos ilustram, com abundância de detalhes, o modo como os Estados Unidos gastaram quase 300 mil milhões de dólares na guerra no Afeganistão para os taliban se encontrarem hoje mais fortes do que em qualquer outro momento desde 2001."  
 
Numa entrevista à Spiegel, o fundador do site, o australiano Julian Assange, foi explícito quanto ao seu objectivo: "Estes ficheiros são a mais global descrição de uma guerra no decurso de uma guerra. (...) Mudarão a nossa perspectiva, não apenas sobre a guerra no Afeganistão, mas sobre todas as guerras modernas." Defendeu a legitimidade de publicitação dos documentos e observou: "Adoro esmagar patifes."  
 
Sem novidade  
 
Os serviços secretos militares do Paquistão (ISI) formam combatentes taliban e dão-lhes orientações estratégicas. A guerra provoca muitas vítimas civis. Certas operações especiais redundam em estrondosos fracassos.  
 
Os americanos têm uma unidade especial, a Task Force 373, para "capturar-assassinar" chefes rebeldes. Não era precisa a "fuga" para saber tudo isto. É público, desde 1994, que foi o ISI quem criou os taliban. A própria TF 373 é há muito conhecida - e fotografada - e foi inclusive objecto de uma investigação.  
 
Nem todas as informações sobre a duplicidade do Paquistão são consideradas fiáveis pelos analistas. Também a referência ao papel do Irão treinandoe municiando os taliban - está sujeita a caução: deriva dum "diz-se que disse", com origem na Embaixada dos EUA em Cabul. Teerão intervém no Afeganistão não através dos taliban mas de grupos comunitários inimigos dos taliban.  
 
A grande informação inédita é o facto de os taliban terem abatido, em 2007, um helicóptero americano com um míssil terra-ar, com sensor de calor. Era suposto não disporem dessa arma. O Exército americano sonegou a verdade, atribuindo o derrube do helicóptero a um ataque "convencional".  
 
"Bomba-relógio"  
 
O efeito devastador da "fuga" começa quando se acumulam os casos de morte de civis. Um exemplo: as 60 vítimas num bombardeamento, no Norte, para libertar uma coluna da ISAF alegadamente cercada por 70 taliban. O comando da coluna garantiu que não havia civis nos arredores e o bombardeamento foi autorizado. Afinal, eram os taliban quem não estava lá. A repetição deste tipo de casos indicia que a contabilidade oficial de "vítimas colaterais" estará muito subestimada.  
 
A TF 373 não brilha pela competência. Exemplo: no dia 11 de Junho de 2006, lançou uma operação nocturna para assassinar um chefe taliban. No dia seguinte, o relatório mostrou que o alvo tinham sido polícias afegãos: sete mortos e quatro feridos. Outras passagens ilustram a desmoralização das tropas da NATO.  
 
Muitos destes factos têm sido narrados por repórteres de guerra e várias ONG. O efeito explosivo decorre da massa, da exaustiva repetição de documentos, escritos no terreno e em si mesmos "banais e de rotina". O conselheiro de Segurança Nacional americano, general James Jones, recusou-se a confirmai" ou desmentir a autenticidade dos ficheiros. Advertiu que a sua divulgação foi "irresponsável" e põe em causa a "segurança nacional".  
 
O MNE paquistanês desmentiu as alegações de duplicidade. Ao contrário, o Presidente afegão, Hamid Karzai, declarou, através do seu portavoz, que nada o surpreendeu: nem o papel dúplice do Paquistão, nem número de vítimas civis que os americanos minimizam. Se os documentos "pouco têm de novo", a sua divulgação neste momento, em que cresce a impopularidade da intervenção em ambas as margens do Atlântico, torna mais difícil a presença dos aliados no conflito, anota uma análise da BBC. "Era a última coisa de que a NATO precisava."  
 
Reduz a margem de manobra de Barack Obama e do general David Petraeus. Complica a sua pressão sobre os paquistaneses. Moraliza os taliban. Um cenário de "retirada rápida" é o mais perigoso para os EUA.  
 
O americano Leslie Gelb, presidente emérito do Council on Foreign Relations, anota que, se os documentos "nada dizem de importante que já não soubéssemos", eles "abalam as fundações da política americana para o Afeganistão e o Paquistão". Põem a nu as contradições da estratégia americana. "No Afeganistão, os interesses do Paquistão não são os mesmos da América, muito longe disso."  
 
Os aliados procuram desvalorizar o impacto da ofensiva do WikiLeaks. O analista Joe Klein traça, na Time online, um paralelo com a divulgação dos Pentagon Papers em 1971. "Aumentará o sentimento público de que a guerra afegã é um exercício inútil. Vamos ver se a Administração Obama pode esperar até Dezembro, como planeado, para reavaliar a sua estratégia afegã."  
 

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